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Da saudade.

Hoje (ontem) eu passei o dia com um choro engasgado, com pensamentos que, de tão rápidos, não conseguia distinguir um. E chorei pra ver se esse mar de sentimentos ia embora, mas ele nem foi. Ok, se é de mais lágrimas que você precisa Fabíola, eu te dou, porque às vezes a gente só precisa dar a nós mesmos tempo, paz e desabafo.

imagem (via)
E filho, essa é a nossa Primeira Páscoa, você aí e eu aqui. Porquê filho...? Olha filho, não se prenda aos 'porquês' da vida, nem sempre eles têm todas as respostas. Viva! Seja feliz, não chore por não estar comigo por que você sempre estará aqui, no lugar mais precioso que tenho, que vai pulsar todos os dias, todos os minutos até o dia que ele então irá parar e nos reencontraremos de novo.

O tempo da Terra filho é diferente do tempo dai. Aqui setenta anos podem ser sete minutos para você. Então viva, meu raio de Sol. Mamãe sente saudades suas também, demais, mas são saudades boas. Eu sei que tinha que ser assim.

Amor, Mamãe-Docinho.

Montanha-russa de sentimentos, sabe o que é isso?!

Se não sabe, eu vos explico, se você tiver paciência. Bem se não tiver eu escrevo de qualquer jeito mesmo, porque isso é uma forma de eu tentar estabilizar tudo, ou seja, colocando pra fora. Désolé...

Bem, na quarta-feira foi um capítulo a parte da minha vida: muita informação nova, que ainda não assimilei todas. Quando tudo estiver certinho eu conto por aqui. Mas definir meu humor, neste dia, em uma palavra seria 'apática', alheia até a um sorteio de mega-sena. Já na quinta-feira eu estava toda contentinha e foi um dia feliz. Eu estava em 'good vibe'.

Ontem, eu tive retorno de dois anos da minha gastroplastia com Dr. Pedro e a primeira pergunta que ele fez quando me viu na sala de espera foi: "Cadê a barriguinha?" - isso aconteceu umas cinco vezes nesses últimos dois dias, a maioria no Orkut, na verdade - e, como sempre, eu respondo com meu texto pronto que perdi o bebê.

Lá dentro do consultório, quando chegou minha vez, Dr. Pedro se desculpou por ter perguntado pelo bebê, porque ele não sabia do aborto. E eu falei para ele que seria o normal ele perguntar, não é mesmo? E mesmo eu tendo ele no meu Orkut e Facebook eu sei que ele só entra lá esporadicamente e, mesmo quem entra sempre já me fez a mesma pergunta que ele, já que eu postei que tinha perdido o bebê e depois não mais falei sobre o assunto nos respectivos locais. Porque, afinal de contas, não cabe ao local. 

E então começou a consulta. Ele me pede para deitar na maca, levanta a minha blusa, aperta todos os locais aonde dói até que eu pergunto: 'Porquê o senhor só aperta aonde dói, hein? Aqui não dói não, pode apertar aí que eu eu deixo...' e ele rindo: "Mas aí não tem pontos da cirurgia, não tem graça".

Exame físico: ok! Vamos as perguntas então, né? E volta-se ao papo da gravidez... E juro, ele me explicou tudo tão bem explicadinho que parecia um obstetra. A-D-O-R-E-I. (Ter obstetra homem deve ser muito legal!). Ele me disse também que era para eu tentar de novo, dai eu fiz a pergunta que martelava na minha cabeça mas que ainda não tinha tido coragem de perguntar a ninguém:

- Mas Dr. Pedro, se eu já tive um bebê assim com esse problemas é bem possível que eu tenha outro, né?

E ele disse: "Não! É muito raro acontecer abortos repetidos e se acontecer é um caso a se estudar. Porque aborto só acontece até o terceiro mês, após isso é parto prematuro, normalmente ocasionado por incompetência istmo-cervical - que eu já tinha lido sobre -, e no seu caso seria uma loteria muito grande, ou seja, muito azar vir dois abortos repetidos."

Dai ele mandou eu subir na balança, um dos fatos de eu ter ido correndo me consultar com ele foi porque eu engordei 4kg depois que perdi o bebê - e nem venham me dizer que foi o soro que tomei durante o tempo que fiquei internada porque eu acho que ele já virou xixi há muito tempo -. E pronto, ele viu que eu engordei, eu admiti que estava com a boca nervosa a noite, ele passou remédio e na saída do médico eu encontrei Charles num barzinho de frutos do mar, daqui de Recife, para uma happy hour gastronômica mesmo, já que nenhum de nós dois bebemos. Sei que comi, exagerei, enjoei, fui pro banheiro um pouco. A sorte é que o banheiro desse bar, consegue ser tão bom quanto o ambiente externo dele; tem ar refrigerado, puffs para vc sentar, e foi isso que fiz, dei uma boa de uma gargarejada com Listerine - eles também tem lá litros de Listerine free - e sentei um pouco embaixo da boca do ar condicionado.

Nisso uma das senhoras que trabalha na limpeza me perguntou se eu estava dor dor, se eu queria um absorvente  - sim, eles são gentis e prestativos assim! -, eu disse que não (...) por fim terminei foi contando tudinho da minha vida a ela, enquanto Charles comia mais um bocado na nossa mesa. Ela sentou num outro puff e me contou que tinha cinco filhos vivos, mas que tinha feito aborto de outros e que se fosse hoje em dia ela jamais teria feito aquilo, teria dado para adoção, que às vezes até escutava até choro de bebê e achava que era um dos seus. Eu falei para ela não se culpar mais do que já sentia, porque mais do que ninguém ela sabe a dor que sente por ter feito aquilo e por não ter aqueles filhos ao lado dela. Não falei sobre Deus, assassinato ou pecado, não vem ao caso.

Sinceramente, aquela mulher carregava tanta dor dentro de si, que se ela tem débitos com o céu estes já estavam sendo pagos, sabe? Não sou a favor do aborto, mas não bato boca com quem fez, cada um sabe o peso que leva em suas costas e eu não gosto é de radicalismo. Consigo conviver com gregos e troianos muito bem.

Por fim eu melhorei, agradeci a senhora e ela disse: "Nem se preocupe que logo você vai vir aqui grávida e depois com seus filhos". Agradeci a ela os cuidados que teve comigo e mais uma vez a confortei sobre o que ela tinha me confidenciado.

Apesar de conhecer o mundo das 'tentantes' de perto e saber que muitas não compreendem o porquê de mulheres que não desejam mais filhos engravidarem como se pegassem uma gripe e elas não conseguirem nem com reza forte, eu consigo me manter neutra e apenas achar que isso tudo são peças da vida. E a gente tem que aceitá-las ou lutar contra elas, dependendo da personalidade de cada uma de nós.

Eu sou das que luto, vou a briga. Vou tentar ter meu bebê de novo, mas não agora. Por hora me permito a um outro tipo de luto; aquele luto que não é depressão, é só tristeza. E esse é o meu humor de hoje: luto. Amanhã, graças a Deus, é outro dia e outro humor vem, porque como todas as mulheres sou de fases e pensando bem, ou melhor, calculando bem, eu devo estar já na TPM. E é assim mesmo, como diz a minha querida Marcinha temos dias de um passo adiante, dois pra trás e no outro dia ao inverso e assim a gente vai vivendo a vida. E vai mesmo!


7 dias. Como vc faz falta! 
E como se consegue viver de novo? Dói.
Respirar por UM SÓ é muito difícil.

Da perda. E depois como se achar?

Eu não iria aparecer por aqui nem tão cedo, sabe? Não porque eu esteja com raiva ou trauma, ou que me sinta mal ao ler as coisinhas da gravidez; é só que, simplesmente, eu estou numa fase introspectiva. Reavaliando tudo, renovando minha fé, me curando por dentro e por fora e tentando perder a mania de entrar na net e ir automaticamente a sites de compras de enxovais de bebê :)

Ah, mas eu também fiquei mega feliz ao entrar aqui e saber da gravidez da Carol, que engravidou no mês seguinte ao aborto e hoje já está com 12 semanas. Olha que coisa linda... Que benção!!!

Mas eu também não poderia deixar de agradecer os abraços, sim abraços... porque não foram simplesmente comentários, foram abraços bem apertados que recebi de cada uma de vcs. A Thais me deixou um lindo há pouco, entre tantos outros que vou agradecer um por um, não vão sentir ciúmes ou afins, porque eu não iria suportar (estou muito sensível esses dias), aos poucos eu vou dar um beijo na bochecha de cada uma de vcs que passaram por isso tudo comigo sem me deixar pirar, literalmente. Gosto muito de todas e todas participaram ativamente dessa gravidez. Meu bebê não era só meu, era de todas .

Quando eu sangrei um anjo me acolheu, quando eu 'pirei' teve um anjo na Alemanha que me fez pôr os pés no chão e assim vai. Obrigada por estarem comigo nos momentos alegres e tristes, saibam que sem vcs eu não teria passado por isso com tanta paz. Com lágrima, muitas lágrimas também, mas em paz.

Eu não gostaria de falar o porque de meu bebê ter falecido, até porque a biópsia ainda não saiu, mas acredito que foi por vias naturais mesmo, ele tinha três meses para passar aqui na Terra e passou. Como aborto foi retido eu tive que me internar no Hospital Memorial São José e a indução química começou as 17hrs da Terça-feira (16). Depois o que pareciam contrações - mas não sei ao certo se eram - começaram. Primeiro de 10 em 10min e por fim ficaram uma ligada na outra e mesmo assim o bebê não desceu. Dai, após 3hrs de indução, a saída foi ir para o bloco cirúrgico, as 20hrs.

A curetagem em si foi 'tranqüila', no fator dor; pois eu tomei anestesia a apaguei. Mas depois foram horas de dor infernal, pior do que das pseudo-contrações. Foi a dor da perda do meu filho e dor do soro com oxitocina tudo junto, mas lá pela meia-noite as coisas aliviaram e as 6hrs da manha chegou a copeira com o café da manhã. Eu comi, nem acordei Charles, levantei da cama só, empurrando o carrinho do soro, comi, separei minha roupa, tomei banho, sozinha também, e então chamei Charles, que finalmente dormia pesado, depois da noite de terror, tadinho... e eu disse: "amor, vamos pra casa!".

Charles e meu Pai foram as melhores companhia que eu pude ter, a noite meu Pai voltou para casa e Charles ficou fazendo massagem na minhas costas, me consolando, secando minhas lágrimas... e ainda dizem que príncipe encantado não existe, bem, o meu existe!

Nem eram 7hrs da manhã ainda, mas a médica me achou tão bem que me deu alta mesmo. Eu fiquei no andar da maternidade; nasceram até trigêmeos. Era lindo ver todos aqueles bebês nascendo, algumas mães até traziam os bebês delas para eu ver e me diziam: "próximo ano você estará aqui". E eu acredito! Logo estarei lá de novo, e dessa vez eu vou sair com o meu bebê no colo.

Obrigada por tudo, viu meninas? De verdade. Fiquem bem vcs também, eu sei que vcs ficaram tristes e que já gostavam muito do meu bebê, e isso me conforta. Ele foi amado por todos! Era um doce de criança mesmo..

Minha médica disse que eu já poderia engravidar de novo dentro de um 1-2 meses, dependo da biópsia do bebê. Mas eu não sei s estou pronta pra isso... Eu preciso me despedir do meu primeiro filho primeiro.

Quando eu digo que 'ele vai voltar' me refiro ao Bebê-Docinho. Todos os meus filhos serão Bebês-Docinhos, mas o meu... o meu primeiro sempre vai faltar. Eu sei que ele está bem. Eu sei que ele foi amado e era isso que ele precisava. E eu preferia assim mesmo, que ele fosse sem dor. Sempre sentirei saudades dele dentro de mim... Foi a época mais linda da minha vida. Mas outras também virão...

Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por 
mais impossíveis que pareçam,  a gente sabe,
que foram feitas pra um dia
 dar certo, né?

Bonjour mes amis. Acabei de receber alta do hospital, agora vou tomar um banho, lavar minha alma e dormir um pouco. A noite foi péssima... muita, muita dor (física e no coração) depois da curetagem. Mas queria AGRADECER o apoio que vcs deram a mim e a minha familia, sou abençoada por ter vcs em minha vida e por ter tido meu anjo por esses meses. Por enquanto eu vou ficar no meu cantinho, quietinha. Doer, dói... Mas quem ama cuida, deixa ir e continua a amar!!!

Até a próxima. Nos próximos dias eu vou descansar um pouco, me cuidar e assim que puder eu volto. Estou bem, Deus acolheu minha dor e me confortou, Ele está com meu bebê e um dia ele volta pra mim.

Voltei, mas voltei sozinha...

O sonho de ser Mamãe foi adiado, meu anjinho voltou para o céu. Tive você em meu ventre por quase três meses, foram três meses de muito amor e acho que foi disso que você precisava, de amor. Volte ao Pai meu Bebê-Docinho e quando sentir saudades de nós, volte pra cá, estaremos esperando por você.

Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis que pareçam, a gente sabe, que foram feitas pra um dia dar certo, né? Um dia dará...

...e nessas horas, apesar de dizer que voltei só, é que noto o QUÃO mão só estou: Deus é perfeito e amigos são amigos mesmo!

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